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COLUNA PATRIMÔNIO HISTÓRICO
Leonardo Ladeira ladleo@gmail.com
Memórias da primeira casa conventual feminina do Rio

rioecultura : Convento da Ajuda : Coluna Patrimônio Histórico

Você consegue visualizar um convento de freiras em plena Cinelândia?

Difícil imaginar que a atual movimentada Praça Floriano tenha abrigado um convento, mas o fato é que ali existiu um sim: o Convento da Ajuda, demolido em 1911.

O Convento ocupava os terrenos entre as atuais ruas Evaristo da Veiga e do Passeio. Permaneceu ali por mais de 150 anos até ser demolido com as obras de remodelação do Rio no início do século XX.

Dele só restou o Chafariz das Saracuras, hoje na Praça General Osório, e abordado aqui na coluna há algumas semanas.

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Vamos conhecer hoje a história do Convento.

Origens

A origem do Convento da Ajuda foi um pequeno recolhimento construído anexo a uma capela situada onde hoje está o Palácio Pedro Ernesto. A capela era freqüentada pelas principais autoridades da cidade, até que entrou em desprestígio, segundo o cronista da história do Rio Vivaldo Coaracy.

Nesse recolhimento primitivo foram viver, ainda no século XVII, uma viúva e suas filhas.

A ideia das reclusas era construir ali um convento, mas a Metrópole era contra a criação de casas conventuais femininas, para não dificultar o povoamento da colônia. A Ajuda seria, então, o primeiro convento feminino do Rio de Janeiro.

O edifício do convento foi projetado pelo brigadeiro Alpoim e teve sua construção iniciada em 1742, ainda antes da licença régia sair. A população da cidade colaborou na construção do Convento da Ajuda oferecendo material, trabalho e ajuda financeira. As obras foram concluídas em 1748, após muitas negociações e esforços do bispo D.Frei João da Cruz.

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Convento em 1806

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Jardins do Convento

Para inaugurar a casa conventual, vieram do Convento de Santa Clara de Salvador quatro freiras, inclusive madre Maria Leonor, a primeira abadessa.

O Convento foi inaugurado em 30 de março de 1750. A inauguração oficial se deu em meio a um cerimonial solene, iniciado por um Te-Deum no Mosteiro de São Bento e completado por uma procissão até a nova casa conventual.

Com a autorização da fundação do convento, a primitiva Capela da Ajuda foi demolida e substituída pela igreja incorporada à casa conventual.

Em memória ao templo original, o convento ganhou a invocação de Nossa Senhora da Conceição da Ajuda. A ordem seguida pelas freiras foi a de Santa Clara.

O Noviciado d´Ajuda

O noviciado d’Ajuda foi aberto oficialmente em 1750. No primeiro ano de funcionamento, o Convento da Ajuda abrigou 23 noviças. Cinco anos depois, a casa já guardava 40 religiosas. Em 1766, o convento, com 57 freiras, estava superpovoado e com problemas financeiros.

As noviças da Ajuda eram provenientes de famílias abastadas, o que dava à instituição condição de “convento de elite”. O severo bispo do Rio, d.Frei Antonio do Desterro, teria mandado queimar os presentes luxuosos que as reclusas recebiam de suas famílias. A casa também era conhecida por possuir muitas escravas e serviçais.

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Apesar das freiras da Ajuda serem consideradas alegres, o convento possuía regras rígidas: era proibido se aproximar da janela e o bispo implicava com as vestes das freiras, proibindo o uso de espartilhos e decotes.

As freiras da Ajuda eram benquistas pela população. Segundo os cronistas da história do Rio, eram exímias doceiras e costumavam atirar doces e balas pelas janelas para o povo. Também se notabilizaram pelos trabalhos de assistência e caridade.

Quando a rainha D.Maria I faleceu, em 1816, seu corpo foi sepultado no Convento da Ajuda, até o regresso da família real para Portugal em 1821. Ali foram enterrados também a imperatriz Leopoldina, a princesa Paula Mariana (filha de D.Pedro I), a infanta D.Mariana (irmã de D.Maria), entre outros membros da família real e imperial. Com a demolição do Convento, parte dos esquifes foi transferido para o mausoléu do Convento de Santo Antonio.

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Terraço onde as freiras faziam recreio, Convento da Ajuda em 1911

Vivaldo Coaracy se refere ao prédio do convento como “enorme e pesado casarão de estreitas janelas, com igreja à frente”.

A Igreja do Convento, segundo Coaracy, era uma das mais suntuosas da cidade.

Em 1893, durante a Revolta da Armada, o Convento da Ajuda foi atingido pelas granadas lançadas dos navios rebelados. Uma delas atingiu o teto da igreja, explodindo no coro, e outras caíram no claustro. As freiras não abandonaram a casa, mantendo-se nela até o final da rebelião.

A Demolição

Com as reformas empreendidas por Pereira Passos no início do século XX, o Convento da Ajuda foi condenado. Não combinava com os ideais de modernidade que o Rio queria alcançar um convento colonial em plena Cinelândia, região símbolo das obras.

Em outubro de 1911, o convento foi demolido e as freiras foram despejadas e transferida para um casarão de estilo neoclássico na Rua Conde de Bonfim, Tijuca. Ali, elas permaneceram até 1920, quando a área foi desapropriada pela Prefeitura para a construção da Rua Alm.Cochrane. Em 1976, o velho casarão da Tijuca foi demolido para as obras do metrô.

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Obras na Cinelândia para a construção da Avenida Central, atual Rio Branco

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No lugar do Convento da Ajuda, a Cia.Light & Power, que adquirira o imóvel, pretendia construir um grande hotel com 300 apartamentos e um café-concerto no terraço. Mas o projeto não saiu do papel e a área acabou dando lugar a vários prédios construídos por Francisco Serrador. O primeiro foi o do Cine Odeon, inaugurado em 1º de junho de 1928.

Segundo Ercole Cremona, o velho casarão do Convento da Ajuda foi demolido porque representava para o poder da época “um anacronismo inestético e prejudicial ao progresso da cidade”.

Outro que protestou contra a demolição do convento foi o escritor Lima Barreto, que escreveu, em julho de 1911, no Correio da Manhã, o artigo “O Convento”, onde diz: ”(...) O convento não tinha beleza alguma, mas era honesto; o tal hotel não terá também beleza alguma e será desonesto (...) De resto, não se pode compreender uma cidade sem esses marcos de sua vida anterior, sem esses anais de pedra que contam a sua história (...)

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Fontes de Consulta:
- ABREU, Maurício. Evolução Urbana do Rio de Janeiro. RJ: Jorge Zahar, 1987.
- COARACY, Vivaldo. Memórias da cidade do Rio de Janeiro. Belo Horizonte: Itatiaia / Ed.da USP, 1988.
- COSTA, Nelson. Rio de ontem e de hoje. RJ: Leo Editores, 1958.
- CRULS, Gastão. Aparência do Rio de Janeiro. RJ: Livraria José Olympio Editora, 1949.
- DUNLOP, C.J. Rio antigo. RJ: Gráfica Laemmert, 1956.
- LIMA BARRETO. “O Convento”. Correio da Manhã, julho de 1911.
- MALTA, Augusto. Fotografia do Rio de ontem. RJ: Prefeitura do RJ, 1979.
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Julio Biar [MPB]

Leo Ladeira [Patrimônio Histórico]

Marcelo Aouila [Teatro]

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Maravilhosa sua matéria. Ler e saber dessa historia do nosso querido RJ é poder continuar sentindo que somos filhos dessa terra e que ela está em constante mudança. Esperamos que para melhor. É realmente uma pena termos perdido prédios e monumentos tão importantes para a nossa história.
  Postado por: Regina Rodrigues
  em: 2011-04-28 18:07:47

Saber é sempre muito bom !!! Maravilhosa matéria daquilo que não devemos esquecer : A História ! Parabéns !
  Postado por: Katia Medeiros
  em: 2011-04-29 11:34:51

Nossa Léo... Em 2004 quando estive ai no RJ fui com uma missão. Caçar algumas obras do Mestre Valentin e o Chafariz das Saracuras estava na minha lista. Como ela é maravilhosa e de fundamental importância para a história da cidade, um RJ de outrora. Parabéns pelo site!!!
  Postado por: Glaucia Garcia
  em: 2011-04-29 22:37:01

Adoro suas matérias sobre o Rio. O belo desparece em meio ao caos da cidade, aí vem um ser iluminado e nos mostra que a beleza ainda esta lá, só que camuflada pelo barulho e a correria das pessoas. Leo vc é sensacional! Beijão
  Postado por: REGINA CAVALCANTI
  em: 2011-04-30 16:58:03

Leo, há algo errado nas fotos do último trecho da Av.Rio Branco no início do sec.XX. Falta o Palácio Monroe, um dos mais belos monumentos do Rio de Janeiro. A demolição, conforme você sabe, se deve, exclusivamente, a Lucio Costa, diretor do IPFHAN na década de 70. Lucio Costa detestava " velharias" e também autorizou a demolição do antigo Min.da Agricultura, em frente à Praça XV, outro prédio belíssimo. Sugiro que você escreva sobre as 4 igrejas que foram demolidas em 1940-42 , para a construção da Av. Pres. Vargas. Um abraço, Yvonne
  Postado por: Yvonne Stern
  em: 2011-05-03 20:06:06

Yvonne, o Palácio Monroe foi remontado no Rio em 1906. Nas três últimas fotos da matéria ele deveria estar sendo erguido. Veja que na última foto ele já aparece. As outras são anteriores a 1906.
  Postado por: Leo Ladeira
  em: 2011-05-05 10:20:51

Caro Yvonne Stern, A visão de Lucio Costa era muito mais aguçada que a do arquiteto do edifício em questão, o engenheiro Francisco Aguiar, que fez uma colagem de ornamentos (caricatura) do passado no pavilhão Monroe numa visão muito figurativa do que é a história. O edifício nem sequer foi projetado para o local onde estava. Era um edifício temporário montado para uma exposição nos EUA que depois resolveram colocar ali. Lucio Costa foi provavelmente um dos arquitetos que mais valorizou a nossa história, isto é explícito em sua obra. Ele não foi a favor da demolição do pavilhão Monroe, só não concordou em tombar um monumento que não acreditava ser importante para a história da arquitetura brasileira como todo bom arquiteto pode constatar. Ele esperava “que o Município, o Estado e a população em geral fizessem sua parte no trabalho de construção de uma memória nacional, de preservação de um passado eleito, de eleição dos seus lugares na cidade, acionando seus próprios instrumentos de proteção ou mobilizando-se para salvar o patrimônio. Se Lucio Costa agisse de forma diferente estaria desvirtuando o instrumento do tombamento, ou não reconhecendo seus fundamentos legais e conceituais, além de estar agindo à revelia de critérios forjados durante anos de trabalho, à revelia dele mesmo.” (SANTOS, Cecília Rodrigues dos, Lucio Costa: problema mal posto, problema reposto em http://vitruvius.es/revistas/read/arquitextos/10.115/2)
  Postado por: MNO
  em: 2011-10-19 17:34:01

Obrigado pelas informações postadas aqui. O meu interesse neste convento é que a minha 6ª bisavó, de seu nome "Dona Teresa Felizarda de São José [foi] educanda no convento de Nosa Senhora da Ajuda". Será que ainda existem os livros de registo de entradas no Convento? Onde eram tomadas notas de quem entrava, filiação e quanto aportavam ao convento? Gostaria de saber. Cumprimentos.
  Postado por: João Luís Esquivel
  em: 2014-01-07 13:24:40

o modernismo faz com que percamos muitos monumentos que enobrecem e enriquecem nossos memória cultural. O BRASIL é um país que não honra a sua historia e muitos dos nossos brasileiros sequer sabem da beleza de nossos monumentos e valores artísticos, adorei ler esta matéria e saber que aquele chafariz da praça onde brincava quando criança tem um valor histórico inestimável, enriqueceu meu arquivo cultural.
  Postado por: edleine
  em: 2015-03-17 20:42:16


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