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COLUNA PATRIMÔNIO HISTÓRICO
Leonardo Ladeira ladleo@gmail.com
rioecultura Coluna Patrimônio Histórico: Em Busca da Memória de Carmen Miranda no Rio de Janeiro

A história de uma cidade e a memória cultural de uma nação também são construídas por meio da trajetória de seus personagens. Residências de personagens famosos da história brasileira adquirem com o tempo uma significação cultural. Elas também contam capítulos importantes de uma época, de um contexto social, cultural e político.

A Coluna Patrimônio Histórico embarca hoje em busca da memória de um dos personagens mais icônicos da cultura brasileira: a cantora Carmen Miranda e suas moradias no Rio de Janeiro.


A chegada ao Brasil e os primeiros endereços no Rio (1909 a 1915)

rioecultura Coluna Patrimônio Histórico: Em Busca da Memória de Carmen Miranda no Rio de Janeiro

Na primeira foto (esquerda), vemos, ao centro, D.Maria, mãe de Carmen, e a filha Olinda. À sua direita, Carmen nos braços de parente, ainda em Portugal. Na segunda foto, Carmen aos quatro anos.
Foto: Reprodução Site Carmen.Miranda.nom.br



Nascida em Portugal em 1909, Carmen Miranda, ou melhor, Maria do Carmo Miranda da Cunha, veio para o Brasil com apenas 10 meses de vida. Seu pai, o barbeiro José Maria Pinto da Cunha, decidiu mudar-se para o Rio de Janeiro para fugir da crise econômica que assolara Portugal desde 1908. S.José (ou S.Pinto, como seria conhecido depois) veio sozinho, na frente, e assim que chegou, conseguiu um emprego (e sociedade) em uma pequena barbearia situada no Centro do Rio, na esquina da Avenida Central (atual Rio Branco) com Rua Mayrink Veiga. Instalado, pôde mandar buscar a esposa, Maria Emília de Barros Miranda, e as duas filhas pequenas, Olinda e Carmen, que ficaram o esperando na aldeia de Várzea de Ovelha (Concelho de Marco de Canavezes), ao norte de Portugal.

Nos primeiros quatro anos de Rio de Janeiro, a família Miranda da Cunha residiu em três endereços diferentes. O primeiro, em 1909, foi no bairro de São Cristóvão, tradicional reduto de portugueses no Rio. Em 1911, a família mudou-se para um sobrado na Rua Senhor dos Passos, 59, localizado mais próximo do trabalho de S.Pinto. Neste sobrado nasceu, em 1912, o primeiro filho brasileiro do casal: o menino Amaro, o Mocotó.

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Sobrado da Rua da Candelária, 94 em 2013
Foto: Leo Ladeira



Pouco tempo depois, os Miranda da Cunha passaram a residir em um sobrado melhor, na Rua da Candelária, 50 (atual nº 94), esquina com o pequeno Beco do Bragança, em cima de uma serraria. Ali nasceram as irmãs de Carmen, Cecília (1913) e Aurora (1915). Nesta casa, Carmen teve um pequeno acidente: ao se debruçar para mostrar uma boneca a uma amiguinha no prédio à frente, ela caiu da janela. Sua sorte foi ter sido amortecida por um rolo de fios telefônicos.

Na foto acima vemos o sobrado da Rua da Candelária com Beco do Bragança em 2013. O prédio encontra-se muito bem conservado. Infelizmente não há nenhuma identificação que ali viveu Carmen.


Rua Joaquim Silva, Lapa (1915 a 1925)

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A Lapa na época em que Carmen ali viveu. Ao lado do antigo Grande Hotel (hoje Sala Cecília Meireles), está a Rua Teotônio Regadas, pela qual se acessava a rua da vila da família de Carmen, a Joaquim Silva.
Foto: Marc Ferrez



Em 1915, os pais de Carmen decidiram que as crianças precisavam de uma casa com quintal para brincar. A família mudou-se então para uma casa de vila na Rua Joaquim Silva, 53, na Lapa. A vila situava-se próxima à Rua Manuel Carneiro (hoje popularmente conhecida como Escadaria Selarón). No ano seguinte, Olinda e Carmen foram matriculadas no Colégio Santa Teresa, localizado na Rua da Lapa. Nesta época, a mãe de Carmen, Dona Maria, começou a lavar roupa para fora. Seguindo a Joaquim Silva até o fim dava-se na Praia da Lapa, a chamada Praia das Areias de Espanha. Foi ali que as crianças Miranda aprenderam a nadar. Em 1917, nasce nesta casa o último filho do casal, o menino Oscar, conhecido como Tatá.

O modus vivendi da família Miranda se encaixava perfeitamente na descrição do bairro feita por Gasparino Damata em “Antologia da Lapa: vida boêmia no Rio de ontem” : “O que se vê é uma Lapa familiar. A família invadindo tudo. A implantação do lar. Missa aos domingos, na igreja de Nossa Senhora da Lapa; às oito da manhã e às seis da tarde, para a portuguesada cheia de filhos”.

No final do século XIX e início do XX, o perfil do bairro começa a se transformar. Segundo a Mestre em Planejamento Urbano e Regional Vanessa Jorge de Araújo, passam a coexistir dois ambientes na Lapa: “Um diurno de característica familiar e um noturno, de boemia que, com o tempo tornou-se um incômodo para os moradores”. Gasparino Damata complementa: “A partir de 1915, as ruas adjacentes – Conde de Laje Taylor, Joaquim Silva, bem como o decantado Beco dos Carmelitas – começaram a infestar-se de casas suspeitas. Nascia então, uma nova Lapa: de crimes passionais, de boemia desenfreada, de malandragem, de sambistas e desordeiros perigosos”. Preocupados com a formação dos filhos, é neste momento que S.Pinto e D.Maria resolvem deixar o bairro boêmio e partir para novo endereço.

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Foto: Reprodução Google Maps


Dos endereços residenciais de Carmen, o único que já não existe é a casa da Rua Joaquim Silva. Aliás, a vila não existe mais. Onde ela existia, encontra-se um pequeno hotel, como comum nesta região da cidade.


Travessa do Comércio, Centro (1925 a 1931)

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A porta do sobrado da Travessa do Comércio em dois tempos: Carmen e sua irmã Aurora na porta da casa, em 1928, e a mesma entrada em 2013.
Foto atual: Leo Ladeira



Em 1925, a família fez sua mudança para um sobrado na Travessa do Comércio, nº 13, de propriedade da Santa Casa de Misericórdia. No início do século XX, a velha Travessa colonial, próxima à Praça XV, já era um dos mais importantes núcleos de imigrantes portugueses do Rio. Como descreveu Ruy Castro, “(...) era uma rua de secos e molhados, onde alguns viviam, todos comerciavam, e o cheiro vinha do mar”.

Os Miranda da Cunha alojaram-se no segundo andar do sobrado (o térreo era ocupado por um armazém de propriedade de outro português). A casa possuía uma boa sala com cozinha adjacente, quatro quartos e um único banheiro. Ali, D.Maria começou a fornecer pensão de almoço.

E foi morando neste sobrado que Carmen despontou para o estrelato. Um dos frequentadores da pensão de D.Maria, o jornalista baiano Aníbal Duarte, ouve Carmen cantar e a leva ao violonista Josué de Barros, considerado seu padrinho artístico. Em pouquíssimo tempo Carmen se apresenta em um festival beneficente no Instituto Nacional de Música, canta em estações de rádio e grava seus primeiros discos. Em janeiro de 1930, duas semanas antes de fazer 21 anos, ela estoura nacionalmente com “Pra Você Gostar de Mim”, rebatizado pelo povo de “Taí”. Em meados daquele ano, já é chamada de “rainha do disco” e de “a maior cantora popular brasileira”. E tudo isso ainda morando na Travessa do Comércio!

Hoje, a Travessa é considerada um dos maiores polos gastronômicos do Centro da cidade, onde podem ser encontrados vários restaurantes e barzinhos. A antiga pensão de D.Maria também funciona como restaurante. Sem divisórias, a casa foi transformada em um grande salão. Da janela temos a mesma vista que a família possuía da antiga Travessa.

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Acima, o sobrado de Carmen Miranda da Travessa do Comércio em 2013. Na primeira foto, a fachada da casa. Na segunda, as janelas que davam para a rua. Essa era a imagem que Carmen tinha da Travessa.
Fotos: Leo Ladeira



Rua André Cavalcanti, 229, Santa Teresa (1931 a 1935)

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A casa de Carmen na Rua André Cavalcanti, em Santa Teresa.
Fotos: Reprodução Site Carmen.Miranda.nom.br



Em meados de 1931, Carmen decidiu cumprir uma promessa que fizera à família: tirar-lhes do Centro da cidade e dar mais conforto, principalmente à D.Maria, que, com o sucesso da filha, não precisava mais fornecer pensão. Em conversa com o cineasta Adhemar Gonzaga, Carmen ficou sabendo de uma casa para alugar em Santa Teresa, de propriedade da família Peixoto de Castro. A casa ficava na Rua André Cavalcanti, 229, próxima ao Largo dos Guimarães. Possuía uma boa sala e cinco quartos. No quintal, pés de caju, goiaba, romã, acerola, sapoti, abacate, além de várias mangueiras (entre duas delas, Carmen pôs uma rede). A subida à rua era feita pela Rua Riachuelo, na Lapa, e por esse motivo ela comprou seu primeiro carro: uma baratinha terraplane, da Hudson. Na casa de Santa Teresa, Carmen recebia compositores interessados em serem gravados pela “Pequena Notável”. Passaram por ali nomes como Assis Valente, André Filho, Custódio Mesquita, Synval Silva.

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Foto: Leo Ladeira


Em 2013, como vemos na foto acima, a casa de Santa Teresa continua de pé, embora pareça um pouco mal cuidada. Uma placa indica que ali viveu a estrela.


Rua Silveira Martins, 20 (Antigo número 12), Catete (1935 a 1936)

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Foto: Kleber de Oliveira


Em 1935, Carmen decide se mudar da casa de Santa Teresa e morar, pela primeira vez, em um edifício de apartamentos. A rua escolhida foi a Silveira Martins, bem em frente aos jardins do Palácio do Catete. A família ocupou todo o térreo do edifício de número 12 da rua. Era um prédio de cinco andares com elevador e escada de incêndio.

O antigo edifício de apartamentos foi adaptado e hoje abriga o Hotel Inglês.


Av. São Sebastião, 131, Urca (1936 a 1939)

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Casa de Carmen Miranda na Urca nos dias atuais.
Foto: Leo Ladeira



Em fins de 1936, Carmen assinou contrato com o célebre Cassino da Urca, de propriedade de Joaquim Rollas. Foi nesta época que, segundo o biógrafo de Carmen, o escritor Ruy Castro, “ela comprou a casa que simbolizava seu triunfo”. A primeira casa própria da estrela custou-lhe 150 contos de réis. Era uma bela casa de seis quartos na Rua São Sebastião, 131, na Urca. Oferecia vista para a baía de Guanabara e possuía salão com varanda, uma saleta onde Carmen ouvia música, jardim de inverno, copa e cozinha. O quarto de Carmen tinha decoração art-déco, própria dos anos 30, com móveis claros de pau-marfim e quinas arredondadas.

Foi quando morava nesta casa que Carmen foi vista pelo empresário Lee Schubert, em uma noite no no Cassino da Urca. Encantado, ele a contrata para seu espetáculo “Streets of Paris”, na Broadway. Carmen deixa o Rio na noite de quatro de maio de 1939 sob comoção nacional. A 19 de junho, ela faz sua estreia na Broadway e se consagra. Daí em diante nasce a estrela mundial Carmen Miranda, a "Brazilian Bombshell".

Enquanto Carmen residiu nos Estados Unidos – de 1939 a 1955 – a família Miranda da Cunha permaneceu ocupando a casa da Urca. Em junho de 1940, depois de um ano de inúmeras temporadas em teatros dos EUA e seu primeiro filme em Hollywood, Carmen volta ao Brasil, de férias e fica hospedada na casa da Av. São Sebastião. Foi nesta ocasião que ocorreu o famoso episódio do “Voltei Americanizada”, quando Carmen foi recebida friamente pela plateia do Cassino da Urca. A estadia vai até dois de outubro, data em que Carmen retorna para Nova York.

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Detalhe da placa na casa da Urca
Foto: Leo Ladeira



Carmen só voltaria ao Brasil 14 anos depois, em dezembro de 1954, quando a família achou por bem trazê-la para descansar da maratona de shows e filmes que abalara gravemente a saúde da estrela. Desta vez ela não ficou na casa da Urca e sim no Copacabana Palace, onde passou quatro meses internada em tratamento de desintoxicação de barbitúricos. Em quatro de abril de 1955 ela retorna aos EUA, mas volta a usar remédios e acaba morrendo vítima de um colapso cardíaco fulminante, no dia 5 de agosto. Tinha 46 anos.

A casa da Urca permaneceu com a família de Carmen durante algum tempo depois da morte da cantora, até que foi finalmente vendida. Hoje, de propriedade particular, não pode ser visitada, mas há uma placa indicando que a Pequena Notável residiu ali.



Fontes de Consulta:
* “Carmen Uma Biografia”. Ruy Castro - CIA DAS LETRAS: 2005.
* “Menina do Rio” - Folha de São Paulo - São Paulo: 26 de Abril de 2009
* “Antologia da Lapa: vida boêmia no Rio de ontem”. Gasparino Damata. Rio de Janeiro – Leitura: 1965.
* Lapa Carioca, Uma (Re)Apropriação Do Lugar - Vanessa Jorge de Araújo. Programa de Pós-Graduação em Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro – Rio de Janeiro: 2009.
* Site carmen.miranda.nom.br
* Site carmenmiranda.com.br
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EXCELENTE MATÉRIA!!! Informativa, envolvente, agradável de ler! Parabéns!!!
  Postado por: Alexandre Siqueira
  em: 2013-11-13 10:06:44

Isto, é a nossa memória, a nossa saudade, o nosso combustivel, o nosso orgulho, a nossa historia.
  Postado por: Vitor Pereira
  em: 2016-02-13 20:22:12

Amei a matéria.
  Postado por: Denise
  em: 2016-05-24 17:17:42

FINALMENTE ENCONTREI ALGO MARAVILHOSO SOBRE A VIVA DA PEQUENA NOTÁVEL...MARAVILHOSO, MUITO OBRIGADO.
  Postado por: PAULO DE TARSO
  em: 2017-04-04 21:25:49


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