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Bastidores do Teatro Municipal são revelados em livro
quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
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No camarim, devidamente trajado em seu smoking, o pianista Nelson Freire espalha perfume no pescoço. Diante do espelho, deleita-se com o produto, e sorri, de olhos fechados. Minutos antes de entrar no palco, o músico deixa o fotógrafo registrar o gesto, que pode refletir vaidade, prazer, ou simples descontração. Independentemente do real significado, o instante único compõe uma das 80 imagens clicadas em Nos bastidores do Municipal, do fotógrafo Bruno Veiga, que durante sete anos flagrou alguns dos artistas e funcionários que se apresentaram na casa carioca.

Documentando a produção artística por trás dos grandes concertos e balés, Veiga clica o momento decisivo, invisível para o público, em que a disciplina técnica da preparação encontra a fantasia poética do espetáculo.

– Os bastidores apresentam uma concentração excepcional de engenhosidade e força humana a serviço do espetáculo – observa o fotógrafo, que trabalhou no projeto entre os anos 90 e 2000. – No início, queria mostrar ao público o trabalho de técnicos e artistas que ninguém vê. Mas, com o tempo, percebi que não havia nada a revelar. Existia na verdade um grande mistério, que eu queria reforçar. Estava fascinado por essa linha tênue que separa a ficção e a realidade nos bastidores de um espetáculo.

Algumas imagens em preto-e-branco situam-se exatamente na fronteira entre esses dois mundos – o da preparação e o da encenação, produção e realização, realidade e ficção – como a da bailarina a um passo de entrar em cena, que ilustra a capa do livro. Escuridão e luz contrastam dentro do quadro. Em primeiro plano, a elegante silhueta negra, tensa, concentrada, prestes a sair das trevas dos bastidores para o universo iluminado do palco, como um gladiador a caminho da arena.

Em outras fotos, os próprios espaços dos bastidores se transformam em cenários fantásticos e irreais. Uma cabeça humana de silicone – que acabara de ser usada na ópera Salomé, de Richard Strauss – surge abandonada em cima de uma cadeira, lembrando uma cena de filme de terror. Ou então é uma pintura no chão do palco que nos transporta para uma dimensão abstrata, que parece ignorar as leis da física.

- Quem trabalha na produção de uma ópera, de um concerto ou de um balé sabe que está a serviço de um momento único, que, ao contrário do que acontece na produção de um filme, não será reproduzido – ressalta Veiga. – É algo que não pode ser industrializado.

Símbolo arquitetônico do Rio, o Teatro Municipal, que completa 100 anos, já foi palco de artistas de fama internacional, como Maria Callas, Beniamino Gigli e Placido Domingo. Mas os personagens de Nos bastidores do Municipal são, em sua maioria, anônimos. Todos aparecem sem créditos, inclusive Ana Botafogo e Nelson Freire, únicas figuras facilmente reconhecíveis do público.

– Não queria privilegiar pessoas importantes – cometa o fotógrafo. –Todos estão no mesmo barco, sejam grandes estrelas, sejam funcionários que trabalham em funções de pouca visibilidade, mas essenciais para o funcionamento do espetáculo.

Infiltrar-se nos bastidores, lugar de descargas emocionais, não foi tarefa fácil. Veiga ganhou a confiança dos personagens aos poucos, até conseguir flagrar momentos de intimidade, como o beijo apaixonado de dois bailarinos num canto do vestiário ou o já citado perfume de Freire. Numa das imagens mais curiosas, um figurante vestido de freira alivia-se no urinol do banheiro.

– Algumas pessoas desconfiavam no início, porque você pode acabar prejudicando os ensaios e preparativos. Às vezes me colocavam em lugares altíssimos para fotografar, e eu ficava horas sozinho, observando. Sentia-me um pouco como o fantasma da ópera, aquela figura meio escondida do espetáculo.

Fonte: Bolívar Torres - JB Online [22.01.09]

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